No decorrer do Ano Litúrgico que começa com o tempo do Advento e tem seu ápice no tempo Pascal, a Igreja vai celebrando e fazendo memória do grande mistério da nossa Salvação. Na quarta-feira de cinzas iniciamos o tempo da quaresma, quarenta dias que precedem o tríduo pascal, durante o qual somos convidados à penitência não somente interna e individual, mas também externa e social como recomenda a Constituição “Sacrosanctum Concilium” sobre a Sagrada Liturgia, nº 110. 

Para ajudar os fiéis nesta conversão externa e social a Igreja no Brasil instituiu a Campanha da Fraternidade desde 1964. Este ano, em continuidade à CF/2016: “Casa Comum nossa responsabilidade” e na direção indicada pela carta encíclica do Papa Francisco Laudato Si, nos é proposto refletirmos o tema: ‘Fraternidade: Biomas brasileiros e defesa da vida iluminado pelo lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15).
Que são biomas? Biomas são conjuntos de ecossistemas, terrestres e aquáticos, com características semelhantes dispostos em uma mesma região e que, historicamente, sofreram as mesmas influencias nos processos de formação. São lugares que Deus criou especialmente para as espécies que ali podem viver e conviver. No Brasil distinguimos seis (06) biomas: Bioma Amazônico, Bioma da Caatinga, Bioma do Cerrado, Bioma da Mata Atlântica, Bioma dos Pampas e Bioma do Pantanal.

Exorto os fiéis a refletirem o tema da Campanha da Fraternidade durante os exercícios quaresmais, nos grupos de oração, nos círculos bíblicos, nos encontros das pastorais e movimentos, e a contemplarem em cada bioma o amor de Deus Trindade que se transborda na criação. Em cada bioma, com carinho de Pai, Deus colocou todos os elementos necessários para a sobrevivência dos seres que ali vivem. Infelizmente, o homem em sua ação depredatória, em busca de poder e riquezas, no decorrer da história e, de forma mais devastadora, em nossos dias, comprometeu o equilíbrio dos biomas e consequentemente a qualidade de vida na região.

Nesta quaresma somos convocados a uma revisão de vida para detectarmos em nossas atitudes e costumes erros e pecados em relação ao meio ambiente. A Sagrada Escritura afirma: “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). E tendo criado o homem e a mulher Deus lhes entregou toda a criação para que a cultivassem e guardassem. Como estamos cultivando e guardando a natureza que nos cerca? Contemplo a natureza como um presente de Deus?

“O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus”, afirma o Papa Francisco (LS 84) e continua no mesmo documento: “Não podemos defender uma espiritualidade que esqueça Deus todo-poderoso e criador. Neste caso, acabaríamos por adorar outros poderes do mundo, ou colocar-nos-íamos no lugar do Senhor chegando à pretensão de espezinhar sem limites a realidade criada por Ele. A melhor maneira de colocar o ser humano no seu lugar e acabar com a sua pretensão de ser dominador absoluto da terra, é voltar a propor a figura de um Pai criador e único dono do mundo; caso contrário, o ser humano tenderá sempre a querer impor à realidade as suas próprias leis e interesses”. (Laudato Si – 75)
Celebrando o Ano Mariano, peçamos a intercessão de Maria, a Mãe Aparecida, para que nesta quaresma, iluminados pelo Espírito Santo, tenhamos a coragem de assumir o lema da Campanha da Fraternidade “Cultivar e guardar a criação”, como um novo paradigma em nossa relação com o meio ambiente.

Dom Manuel Parrado Carral