EQUIPE DIOCESANA DE MINISTÉRIOS NÃO ORDENADOS 
SUBSÍDIO DE FORMAÇÃO PARA REUNIÕES PAROQUIAIS - 02 

Ministerios2_2010

“O Concilio Vaticano II definiu a liturgia como sendo celebração do mistério pascal, memorial (anámnese) da vida, morte/ressurreição do Senhor e de sua 'volta' no final dos tempos. Que relação poderá haver entre a páscoa de Cristo e a ecologia?”

Na encíclica Dies Domini (DD), sobre o domingo, dia do Senhor, o papa João Paulo II insiste na relação intrínseca entre o mistério da redenção com o mistério da criação. No domingo, 'páscoa da semana' celebramos ao mesmo tempo "a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, o cumprimento nele da primeira criação e o início da nova criação" (DD n. 1). Relaciona, portanto, criação, redenção e escatologia num único movimento. Nossa fé coloca a ressurreição de Jesus não somente inserido na história da humanidade, mas "no centro do mistério do tempo", revelando seu sentido profundo (DD n. 2). O primeiro capítulo da encíclica trabalha esta relação entre a primeira e a nova criação, apontando o domingo, dia do Senhor, como "celebração da obra do Criador", levada avante pela 'missão cósmica' de Cristo, "origem e fim do universo" (DD n. 8). E nós somos chamados/as a levar avante esta missão cósmica: admirando e usufruindo a obra maravilhosa da criação (que vamos conhecendo melhor através do "extraordinário progresso da ciência, da técnica e da cultura"); continuando o trabalho da criação, da construção do mundo, cultivando e desenvolvendo suas potencialidades, como 'colaboradores' de Deus (DD nn. 9-10). Mas o domingo antecipa principalmente o alvo de nossa caminhada: é o 'oitavo dia' que "orienta o cristão para a meta da vida eterna" (DD 26), para o "domingo sem fim" na Jerusalém celeste (DD 37). A relação entre ordem da criação, salvação e escatologia já se encontra no mandamento de shabbat, que indica a espiritualidade com a qual devemos viver o domingo: é dia de repouso para contemplar a realidade criada e viver em profundidade nossa relação com o Senhor, mas é também memória agradecida da libertação da escravidão no Egito (DD nn. 11-17) e espera da redenção definitiva.

Criação, redenção, escatologia fazem parte, portanto, de um único movimento, que - para nós, cristãos - tem seu ponto alto na morte-ressurreição de Cristo. Todas as forças de morte que impedem o pleno desabrochar da criação foram vencidas pelas forças de vida e de amor que culminam na pessoa de Jesus de Nazaré. O mistério pascal inclui o cosmos; podemos falar da 'páscoa do universo': é o mistério que acontece dinamicamente na história evolutiva do cosmos (e da humanidade), rumo à sua plena realização (pleroma, Reino de Deus).

Lembremos alguns ritos litúrgicos, fazendo uma releitura a partir deste enfoque da relação intrínseca entre criação, redenção e escatologia:

1) Parece-me urgente redescobrirmos o sentido do Domingo, dia do Senhor, páscoa semanal, a partir do shabbat judaico (1): descanso semanal, não vivido como proibição de trabalhar, mas como privilégio de poder parar de trabalhar, de gozar da liberdade de não mais ser escravo/a do trabalho, da produção, do consumismo, do divertimento como distração daquilo que somos em profundidade. Dia para tomar tempo e distância para admirar a obra realizada, admirar a beleza da criação de Deus e nossa (E Deus viu que era muito bom!). Dia do Senhor, dia para o Senhor, Deus da criação, no louvor, na escuta de sua Palavra, na convivência, na espera da vinda do Messias e da plena realização do Reino. Dia para o Senhor, como um tempo para aquietar-nos, respirar, inspirar: abrir-nos ao Espírito Criador e Vivificador que nos é dado e que nos torna criativos/as: Enviai vosso Espírito, Senhor, e tudo será criado e renovareis a face da terra!(2) A partir do Domingo, abre-se, então, nova semana vivida na obediência à Palavra do Senhor e ao Espírito, na colaboração à vinda do Reino. Dia para vivermos a dimensão esponsal de nossa fé.

2) Na celebração eucarística, a aclamação memorial ganha contornos cósmicos: Anunciamos, Senhor, a vossa morte...: também a morte do planeta pela ação destrutiva do ser humano... Proclamamos a vossa ressurreição...: também os esforços de recuperação e restauro dos prejuízos causados e as descobertas científicas que beneficiam a vida no planeta... Vinde, Senhor Jesus: é a escatologia, incluindo 'o novo céu e a nova terra' anunciados no Apocalipse 21, quando "Deus será tudo em todos" (lCor 15,28).

3)O pão e o vinho na celebração eucarística representam, conforme 'Gaudium et Spes' n. 38, 'a atividade humana elevada à perfeição do mistério pascal'. (3)

4) A retomada da bênção da mesaantes das refeições não seria uma oportunidade de valorizar os alimentos como dom de Deus, "fruto da terra e do trabalho humano"? Talvez isso nos ajude a cuidar melhor da escolha de alimentos saudáveis, não transgênicos, sem agrotóxicos e outros elementos prejudiciais à saúde?...

5) Pela celebração da liturgia das horas (ofício divino) inscrevemos o louvor e a prece em memória ao Cristo morto e ressuscitado no dinamismo cósmico da alternância do dia e da noite, com o simbolismo do sol nascente e poente. Vejam os hinos de manhã e de tarde, p. ex. Luz radiante..., Clarão da glória do Pai..., Ó Cristo, luz que vem do alto..., Cai a tarde, o sol se esconde....

6) Muitos salmos do ofício divino nos abrem ao louvor cósmico, por exemplo: Salmo 8; Salmo 19(18), 1-7; Salmo 29(28); Salmo 33(32); Salmo 67(66); Salmo 93(92); Salmo 95(94); Salmo 98(97); Salmo 104(103); Salmo 148; Salmo 150.

7) Três hinos cristológicos, cânticos bíblicos da liturgia das horas, exaltam Jesus, o Cristo, como Senhor do universo, "primogênito de toda criatura", "recapitulador da criação": Fl 2,6-11, Col 1,12-20 e Ef. l,3-10. (4) (Versão do Oficio Divino das Comunidades, p. 255-6, p. 257-8 e p. 253-4).

8) A liturgia do advento, principalmente em sua primeira fase, até 17 de dezembro, mantém vivo nosso desejo de plenitude, de plena realização do Reino de Deus entre nós, quando a justiça de Deus será estabelecida sobre a terra e seremos inundados de alegria no encontro sem fim na casa de Deus, na festa do casamento da noiva e do Cordeiro. (Vejam vários textos bíblico-litúrgicos, como, por exemplo, Is 11,1-10, primeira leitura no segundo domingo do advento do ano A do lecionário com o salmo responsorial 71(72): Nos seus dias a justiça florescerá...). (5) Inspirado no mesmo texto do profeta, vs. l, cantamos o refrão 'Da cepa brotou a rama, da rama brotou a flor'... anunciando a vinda do Salvador, não mais nascendo da árvore frondosa da dinastia real, mas do toco de um tronco cortado! O Salmo 85(84), com o refrão Das alturas orvalhem os céus e as nuvens que chovam justiça... canta a salvação como trabalho conjunto entre Deus e a humanidade, com imagens da chuva que vem do céu que encharca a terra e assim faz brotar os frutos. "As chuvas abundantes que costumam ocorrer no tempo do advento em muitas regiões do Brasil certamente darão uma concretude maior ao nosso canto. Meses de seca fizeram com que todo o nosso organismo, assim como o meio ambiente, desejassem ardentemente e clamassem por chuva. A chuva é bênção! Sua vinda é festejada com alegria. Assim também situações prolongadas de injustiça social fazem com que o povo almeje ardentemente e clame por paz, justiça, amor, na esperança de mudanças significativas: “que a terra se abra ao amor e germine o Deus salvador”(6).

9) Na liturgia do Natal, como fazer a re-leitura do "mistério do Natal', memória da encarnação? De que modo Jesus, o Senhor, entrou no mundo, integrou-se no cosmos, 'encarnou-se' e 'assumiu' a natureza humana? Seria possível que ele viesse inserido artificialmente, como que de cima para baixo, de fora para dentro? Ou devemos pensar antes numa inserção na 'cosmogênese' desde o princípio, na lenta maturação do cosmos e da humanidade, como aconteceu com cada um/a de nós? Afinal, Hoje sabemos que todos os seres provém dos elementos fisicoquímicos que se forjaram no coração das grandes estrelas vermelhas que depois explodiram. Todos estávamos um dia juntos naquele coração incandescente. Guardamos uma memória cósmica desta nossa ancestralidade. Depois, sabemos também que possuímos o mesmo código genético de base presente em todos os demais seres vivos. Viemos de uma bactéria primordial surgida há 3,8 bilhões de anos. Formamos a única e sagrada comunidade de vida. (7) Recentemente, num noticiário televisivo, ouvi uma cientista dizer que, ao obserar uma célula-tronco no laboratório, ela se emocionou, pensando: "Eu comecei assim!” Não é maravilhoso lembrar que cada célula traz em si uma 'pré-história' cósmica? E que Jesus, assim como nós, pode ser considerado fruto de milhares de anos de trabalho cósmico? Alguns textos bíblico-litúrgicos no tempo do Natal nos ajudam a assumir esta ima¬gem. Vejamos:

- Na vigília do Natal, ouvimos a genealogia de Jesus segundo Mateus 1,1-17, iniciando com Abraão e seguindo toda a descendência de Davi. É bom lembrar que a genealogia de Jesus em Lc 3,22-38 (8), inverte a lista na ordem do tempo, iniciando com 'filho de José', e... indo em "marcha a ré' até o começo da criação, até o 'pai' [e a mãe!] da humanidade: filho de Adão [filho de Eva], filho de Deus.

- A liturgia do Natal nos faz reconhecer na criança indefesa no presépio na gruta de Belém o Verbo que era desde o princípio e pelo qual foram feitas todas as coisas: No princípio era o Verbo... Tudo foi feito por ele e sem ela nada se fez de tudo que foi feito. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens ... (Cf. Jo 1,1-18).

10) A unção dos enfermos e a liturgia por ocasião do falecimento (velório, exéquias): de um lado, a aceitação tranqüila de que somos frágeis, finitos - Cf. quarta-feira de cinzas: Lembra-te de que és pó e ao pó hás de voltar...; de outro lado, a convicção de fé de que a vida não termina com a morte: Ó Pai, para os que crêem em vós, a vida não é tirada, mas transformada, e, desfeita a nossa habitação terrena, nos é dada, nos céus, uma eterna mansão. (Missal Romano, Prefácio dos mortos, 1)”


NOTAS:

(1)Shabbat (substantivo feminino em hebraico) é considerado a esposa do povo de Israel; dai a dimensão nupcial da celebração de shabat. Cf. o famoso cântico Lechá dod..., Vem, amado...

(2) Cf. DD 28, o domingo como dia do dom do Espírito, dia do 'fogo', Pentecostes semanal.

(3) Vejam artigo anterior em RL 217, a respeito da bênção sobre o pão e o vinho na preparação das oferendas da liturgia eucarística.

(4) Comentário em: SUSIN, Luis Carlos. A Criação de Deus. Valencia, Espanha / São Paulo, Siquem / Paulinas, 2003, pp. 156-9.

(5) Leiam: SUSIN, Luis Carlos. A Criação de Deus. Valencia Espanha / São Paulo, Siquem / Paulinas, 2003, pp. 34-36.

(6) Cf. BUYST, lone FONSECA, Joaquim. Música ritual e mistagogia. São Paulo, Paulus, 2008 (Col. Liturgia e Música), cap. 2.

(7) Leonardo BOFF, Zenbudismo na vida e no trabalho, em www.adital.com.br, 08/09/2009.

(8) A genealogia de Lucas é indicada como leitura alternativa para os dias da semana do tempo do natal (dia 6 de janeiro).

Texto de Yone BUIST extraído da Revista de Liturgia, n. 218, Março/Abril 2010, pp. 4,5 e 7.