EQUIPE DIOCESANA DE MINISTÉRIOS SUBSÍDIO
PARA REFLEXÃO NOS ENCONTROS PAROQUIAIS DE MINISTOS

No segundo domingo da Quaresma Ano A o evangelho é de Mt 17, 1-9 (a transfiguração de Jesus). A partir deste evangelho podemos meditar sobre nossa condição de batizados como de pessoas configuradas a Cristo, mortas para o pecado e nascidas para Deus, O qual fez-nos participantes de sua natureza divina, iniciando assim um processo de divinização (transfiguração) que terá sua plenitude na ressurreição. Somos chamados a deixarmo-nos transfigurar por Cristo, por meio do Espírito, escutando a sua voz (Evangelho) e deixando-nos abraçar pela ternura de Deus que nos envolve (a nuvem). Somos chamados para o alto! É grande a nossa dignidade de filhos de Deus!

O processo de conversão-transfiguração não cessa, ele continua até nossa partida para o Senhor. E mais: ele não deve terminar em nós, mas, através de nós, deve transfigurar também o mundo e a realidade presente: descer do monte para a missão! E por falar em missão, não podemos pensar este processo de transfiguração somente no nível pessoal, mas também eclesial, ou seja, também a Igreja inteira é sempre chamada a renovar-se, e social: o mundo precisa ser transfigurado pela “alegria do Evangelho”.
Vale a pena lembrar aqui o apelo do Papa Francisco para uma “transformação missionária da Igreja” (Evangelii Gaudium, cap. I). O papa ressalta a importância de a Igreja “sair” ao encontro das pessoas, realidades, culturas, e levar-lhes o Evangelho, num processo que exige iniciativa e envolvimento de todos e cada um (primeirear), exige também acompanhamento paciente e constante, saber frutificar e também “festejar” as vitórias e avanços, especialmente na beleza da Liturgia. Isto exige, lembra o papa, “uma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão” (n. 25). Diz ainda: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação” (EG n. 27). A alegria do Evangelho pode transfigurar o mundo, estabelecendo a justiça, a fraternidade, a paz entre as pessoas e os povos!

Reflexão: como nós, ministros, nos mantemos abertos à transfiguração de nossa vida? Como podemos contribuir para uma transfiguração missionária de nossa comunidade, paróquia e diocese? Como temos atuado para transfigurar a realidade à luz do Evangelho?

O terceiro domingo desta quaresma proclama o evangelho de Jo 4, 5-42 (Jesus e a Samaritana). No batismo fomos lavados pela água salutar que jorra de uma única fonte: Cristo e seu mistério redentor. Ele é a água viva: “‘Se alguém tem sede, venha a mim, e beba quem crê em mim’ - conforme diz a Escritura: ‘Do seu interior correrão rios de água viva’” (Jo 7,37). A atitude de Cristo é paradigmática: não se importando com preconceitos e padrões sociais, vai ao encontro daquela samaritana para anunciar-lhe a salvação. No diálogo Cristo leva-a a desejar a água viva que mata toda a sede de Deus, de vida e de plenitude. Ela pede: “Senhor, dá-me dessa água!”.

Para chegar àquela mulher samaritana, Jesus venceu obstáculos colocados pelas tradições judaicas e pelos preconceitos em voga, o que nos faz lembrar as palavras do papa Francisco: “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida” (EG n. 49). Este evangelho nos faz pensar também no papel das mulheres em nossas pastorais, comunidades, família e sociedade. O Papa Francisco nos lembra que “ainda é preciso ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja”, na vida social, no mundo do trabalho e nos lugares onde se tomam as decisões, seja na sociedade, seja na Igreja (EG n. 103).

Reflexão: somos acolhedores, para além dos preconceitos de raça, cor, sexo, condição social etc. para ir ao encontro daquele que espera receber da água da vida? Que iniciativas podemos ter nos fazer próximos dos que estão longe para levar-lhes a água viva que é Cristo? Qual tem sido o papel das mulheres em nossas comunidades?

No quarto domingo, por sua vez, o evangelho é de Jo 9, 1-41 (o cego de nascença). Este evangelho proclama Cristo como a Luz do mundo. De fato, o evangelho de João contrapõe constantemente luz e trevas, filhos da luz e filhos das trevas. Logo no seu início, o evangelho de João afirma que Cristo é a luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem (Jo 1,9). Ninguém mais precisa caminhar às escuras e às apalpadelas, pois em Cristo se encontra a verdade plena sobre Deus, o homem e sua vocação e destino. Seguir a Cristo é deixar-se iluminar por Ele. Cristo é aquele que pode curar nossas cegueiras. E como é difícil, às vezes, admitirmos esta cegueira... Não é fácil detectar e admitir a estreiteza de visão, a cegueira própria. É só à luz de Cristo que isto se torna possível.

Há muita cegueira no mundo e em nossa sociedade. Algumas delas são citadas pelo Papa Francisco na Evangelli Gaudium: a cegueira diante de uma economia da exclusão e da desigualdade social que mata, de modo que a morte de um sofredor de rua por frio não é notícia, não é vista (n. 53); a cegueira diante da globalização da indiferença para com o outro, para com o pobre e sofredor (n. 54); a idolatria do dinheiro e o consumismo, com a ambição do ter e do poder, que cegam (n. 55-56); a estreiteza de visão que nega a Deus e à ética (n. 57); a cegueira que impede de ver que a desigualdade social gera violência e insegurança (n. 59); a cultura dos meios de comunicação que privilegiam mais a aparência que a realidade (n. 62); a cegueira em relação ao sentido do pecado pessoal e social (n. 64); a visão míope do matrimônio visto somente na forma de gratificação afetiva, gerando fragilidade nos vínculos (n. 66).

Frente aos desafios da missão, sobretudo na realidade urbana, o Papa nos convida a um novo olhar para a cidade em que habitamos, um olhar contemplativo, de fé, que descubra nela a presença e a ação de Deus (n. 71) e, para isso, precisamos da luz de Cristo! Só assim veremos os que não são vistos: os “não cidadãos”, os “meio-cidadãos” e os que são considerados como “resíduos urbanos” (n. 74). Deixemo-nos, portanto, iluminar por Cristo – este é o convite do evangelho escolhido para este domingo. A Palavra é a luz para os nossos passos, o Evangelho é o nosso candeeiro, o qual, por sua vez, fará de nós candeeiros para o mundo: “Vós sois a luz do mundo!” (Mt 5,14). Peçamos: “Senhor, abre nossos olhos!”

Reflexão: com que olhar vejo os outros, veja a minha comunidade, a minha cidade e o mundo? Há cegueiras em mim? Nossa comunidade tem sido luz neste chão onde Deus a plantou?

A série de evangelhos escolhidos para esta Quaresma do Ano A conclui-se no quinto domingo com Jo 11, 1-45 (a Ressurreição de Lázaro). Isto porque aquele que foi batizado foi também sepultado na morte com Cristo para, com Cristo, renascer para uma vida nova (Rm 6,1-11; Cl 2,12). Eis a condição desejada para nós por Deus: uma vida de ressuscitados! Isto implica morrer para o pecado e nascer para Deus, abandonar o homem velho e revestir-se do homem novo (Ef 4, 17-24). O processo de divinização e configuração a Cristo culminará na ressurreição, mas desde já devemos viver a condição de “vivos para Deus”. Além de mostrar-nos que Cristo é a ressurreição e a vida, este Evangelho mostra-nos também que os que n’Ele crêem não estão sujeitos à morte: já aqui somos chamados a uma vida mais plena, a uma condição superior de vida! A ressurreição de Cristo é a vitória sobre o pecado, o mal e a morte. Ela é a motivação do cristão para que não desista do bem, não desista da missão que o Senhor nos confia. O papa Francisco alerta: “Uma das tentações mais sérias que sufocam o fervor e a ousadia é a sensação de derrota que nos transforma em pessimistas lamurientos e desencantados com cara azeda. Ninguém pode empreender uma luta, se, de antemão, não está plenamente confiado no triunfo” (n. 85). Com Cristo a vida venceu a morte, a luz venceu as trevas: aí deve estar nossa esperança e nossa força para não desistirmos no meio do caminho.

Reflexão: mostramos ao mundo a alegria do ser cristão e realizamos nossa missão com entusiasmo? De que maneira concreta podemos testemunhar hoje a vitória da vida sobre a morte?