Dando seguimento às formações preparadas pelos professores do nosso Instituto de Teologia São Miguel, apresentamos um texto preparado pelo Pe. Rodrigo Floco Porto, sobre as festas marianas deste mês de dezembro: a solenidade da Imaculada Conceição, celebrada no dia 8; e a Virgem de Guadalupe, no dia 12.

GUADALUPE

Há pouco iniciamos o mês de Dezembro, um período caracterizado pelas festas de Fim de Ano que trazem um sabor todo especial ao ano. É um tempo de muita esperança, pois sendo o final de um ciclo, as pessoas reavaliam projetos e caminhos tomados e, ao mesmo tempo, configuram novos rumos a serem tomados.

Na igreja, é tempo de esperança porque se celebra o Advento de Cristo, trazendo aos cristãos a alegre notícia da vinda do Salvador feito homem e preparando os corações para a chegada do Senhor, nos capacitando assim a viver mais integralmente o desejado plano de Deus de vida plena e felicidade completa. É neste clima de esperança e entrega que brilham duas grandes festas marianas, que ao mesmo tempo que nos alegram e nos fazem rezar, também nos catequizam sobre a verdade de Deus para o ser humano. Falamos da Solenidade da Imaculada Conceição, celebrada no dia 8 de dezembro, e da Festa de Nossa Senhora de Guadalupe, comemorada quatro dias depois, no dia 12.

Celebrada na Inglaterra e na Normandia desde o século XI e proclamada solenemente um dogma universal de fé em 8 de Dezembro de 1854, a festa da conceição de Maria era apoiada sobretudo na condição miraculosa do nascimento de Nossa Senhora, pois se sabia da esterilidade de sua mãe, Ana, e os cristãos apoiavam-se sobretudo na certeza de que Deus desejou e escolheu Maria, cumulando-a da plenitude de suas graças desde sempre – não à toa lê-se na Missa de 8 de Dezembro as palavras do Anjo: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” (Lc 1,28). A condição de cheia de graça fazia de Maria uma criatura especial, pois como ser humano ela estaria condenada a participar da mesma sorte de todas as pessoas e ter sua dignidade original maculada pelo pecado. Entretanto, a Virgem foi preservada desta mancha pelos méritos e em vista de Cristo desde o início de sua concepção, abrindo caminhos de esperança para a humanidade inteira. Ela é a mãe da esperança, pois dela nos veio a Esperança realizada, a promessa cumprida, a paz definitiva – o Deus conosco, Emanuel.

Celebrar a Imaculada Conceição é recordar que um ser humano viveu imune ao pecado e, por conta da graça divina, nunca incorreu em pecado algum durante sua vida. Mas não é só isso. Este dogma nos lembra como opera a graça divina na vida de todos os filhos de Deus, pois proclamar essa verdade de fé é saber que estando ao lado de Deus e entregues de corpo e alma ao seu projeto original divino, somos capazes de ter em nós os mesmos sentimentos de Cristo: nos tornamos livres para ser verdadeiros filhos de Deus.

A Cheia de Graça nos mostra como se vive em estado de graça: desde os tempos e testemunhos bíblicos até aos dias de hoje, ela se mostra filha predileta de Deus, mas se manifesta também uma Mãe amorosa que não deixa seus filhos caídos na indignidade do pecado, mas antes, restitui a dignidade original de todos eles, em todos os tempos e em todos os lugares. É belíssimo conhecer, por exemplo, a história do humilde indígena asteca Juan Diego Cuauhtlatoatzin, que teve em 1531, na colina de Tepeyac (Guadalupe, México) a visita de Nossa Senhora trazendo a ele a missão de comunicar ao bispo local que a Virgem desejava que um santuário fosse construído naquele local.

O pobre índio se sentiu ao mesmo tempo acuado (naqueles tempos e naquela cultura, como um bispo daria ouvidos a um índio?) e impelido por uma força interior a cumprir a missão que lhe foi confiada. Ele foi, mas a missão não obteve sucesso. A Virgem apareceu-lhe novamente e ainda por outras duas vezes... em todas elas, Juan Diego obedecia e ia ao bispo. Este lhe pedia sinais de que estava falando a verdade. A própria Virgem lhe deu o sinal: miraculosamente imprimiu-se no manto do índio a imagem resplandecente daquela bela mulher que lhe aparecera. Diante de sinais tão evidentes, como não projetar e realizar a vontade divina? Foi construída a Basílica de Guadalupe e a ocorrência de milagres no decorrer dos séculos foi ratificando a fé de um povo oprimido e sofrido. Guadalupe tornou-se símbolo da fé, da perseverança e da obediência à vontade divina. De fato, estas três virtudes fizeram de Maria o que ela representa e é para todos nós... por isso, não poderia ser diferente que aquele local nos indicasse também isso.

Vale a pena conhecer a fundo a história de Nossa Senhora de Guadalupe e ver a riqueza dos detalhes, tanto das aparições quanto do que veio após – o que não cabe aqui por força das poucas linhas disponíveis. Pode-se e deve-se, contudo, ressaltar o que a Virgem de Guadalupe significou e significa até hoje não apenas para Juan Diego, mas para todos os povos, especialmente os da América Latina: mais uma vez, a Virgem Maria brilha como sinal de esperança para os filhos de Deus que procuram se libertar de tudo o que oprime a sua dignidade, o que cala a sua voz e o que deturpa o seu sentido mais profundo e verdadeiro do ser imagem e semelhança de Deus.

A Imaculada Virgem Maria, Senhora de Guadalupe, é este sinal em nossas vidas de que tanto precisamos para nos recordarmos que não estamos sós, que não devemos desistir de lutar pelo que Deus quer para nós e de que somos parte de um projeto infinito de Deus. Ela seja para este fim de ano tão conturbado um sinal de esperança para os que projetam um 2021 menos desigual, com mais tolerância, mais respeito e mais dignidade para todos!

PROFESSOR2
Pe. Rodrigo Floco Porto
Pároco da Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, do setor Ponte Rasa. Neste semestre, lecionou 'Teologia da Graça' para a turma do 2º ano do nosso Instituto de Teologia São Miguel. Também leciona na Faculdade Paulo VI, em Mogi das Cruzes. É mestre em Teologia, com ênfase em Cristologia.